Alimentação de peixes ornamentais e o desempenho comercial do aquarismo
Atualizado: 19 de ago.
Assim como o desenvolvimento de rações balanceadas e específicas para cães foi parte determinante para a consolidação desse segmento pet, a alimentação para peixes ornamentais tem experimentado um contínuo avanço técnico e científico. Através de muita pesquisa e testes, as empresas do ramo investem cada vez mais na busca de soluções adequadas que atendam as necessidades das várias espécies comercializadas no mercado de aquarismo mundial.
A importância de uma alimentação adequada para peixes ornamentais vai muito além do que as pessoas não iniciadas no hobby podem pensar, e não se restringe de forma alguma apenas às necessidades nutricionais dos peixes. Claro, isso em si é de profunda importância, mas também conceitos como digestibilidade, conversão alimentar, biodisponibilidade, especificidade de nutrientes, dentre outros, são igualmente vitais para o sucesso não apenas na nutrição adequada dos peixes, mas também para a manutenção de uma qualidade de água adequada a todos os seres vivos do aquário.
Esse último conceito reside em algo extremamente simples, porém muitas vezes passa sorrateiramente despercebido dos aquaristas iniciantes: a principal fonte de poluição da água do aquário consiste no alimento utilizado no mesmo. Ao realizar uma breve reflexão, observando o que introduzimos no aquário no dia a dia, chegamos sempre à mesma conclusão de que são os alimentos os únicos produtos que colocamos no aquário todos os dias. Claro, fazemos isso para alimentar os peixes; então, qual o problema?
O problema é que qualquer alimento não consumido pelos peixes -- o que sobra e se espalha pelo aquário -- sofrerá decomposição microbiana, e desse processo formam-se toxinas perigosas aos peixes. Por isso a necessidade de sempre orientar o aquarista a fornecer apenas pequenas quantidades, de modo que os peixes comam tudo entre dois a três minutos sem deixar sobras; e alimentar os peixes, no geral, apenas uma a duas vezes no dia (há exceções, que não cabem no escopo desse pequeno texto). Porém, mesmo nessa situação ideal “sem sobras”, o problema persiste, agora de forma insidiosa, já que o alimento ingerido pelo peixe também gera grande problema: nenhum alimento será 100% aproveitado, e sempre gerará algum nível de excreção direta ou indiretamente tóxica.
Então, se o alimento não for muito bem elaborado, com ingredientes de alto aproveitamento pelo peixe, a tendência é que ele venha a gerar grande nível de poluição e toxinas no aquário, comprometendo toda a saúde dos peixes e demais seres vivos, além de tornar o aquário algo desagradável a todos que convivem com ele.
Uma das grandes diferenças da manutenção de peixes ornamentais em aquários (e até em pequenos lagos ornamentais) para os demais pets tradicionais -- a saber, cães, gatos, pássaros -- é que para esses últimos não se faz necessário criarmos um ambiente para sua manutenção, já que esse é o mesmo que compartilhamos com eles, ou seja, o chão e a atmosfera. Ninguém, por exemplo, necessita de filtragem de ar para manter cães, gatos ou pássaros. Outra questão fundamental é que sempre temos pleno acesso para coletar e remover todos os excrementos produzidos por esses pets, e assim podemos manter o ambiente limpo e saudável.
Já na manutenção de peixes, necessitamos antes recriar todo um sistema físico, biológico e químico bastante complexo que permita sustentar a vida no aquário, e que vamos aqui resumir em manter a água limpa. Outro problema fundamental e grande diferença aos demais pets é que no aquário não temos acesso aos excrementos dos peixes.
Na purificação da água no aquário, então, utilizamos modernos equipamentos de filtragem da água que ajudam na remoção de parte dos excrementos e na destoxificação de toxinas, o de que permite a manutenção de aquários por anos sem a necessidade de grandes intervenções.
Porém, não podemos nos esquecer de que estamos falando de equipamentos que possuem suas limitações, ou seja, os fabricantes dos filtros não preveem a utilização de excessos de alimento, de alimentos de baixo aproveitamento pelos peixes (alimentos desbalanceados ou pobres em nutrientes, onde a maior parte ingerida não é aproveitada e acaba excretada, aumentando a poluição da água), ou mesmo a superpopulação de peixes.
Também não podemos deixar de perceber que os excrementos dos peixes se fracionam e/ou se diluem na água do aquário, e sob ação de micróbios que os decompõem, gerarão toxinas que podem ser mortais aos habitantes do aquário. Assim, o que está retido pela filtragem é apenas uma pequena parte, e continua a poluir a água enquanto não for removido do filtro -- afinal, a água passa sempre pelo filtro e dilui as toxinas que continuam a se formar lá.
O problema maior ocorre da conjugação de superpopulação de peixe e uso de alimento de baixa qualidade, o que infelizmente é o mais comum de ser encontrado junto de aquaristas novatos. O iniciante é sempre empolgado e acaba por “entupir” o aquário com peixes, acreditando que o sistema de filtragem será capaz de purificar a água qualquer que seja seu grau de poluição. Igualmente, desconhece que peixes possuem alimentação bastante específica, acreditando no lugar-comum de que “peixes comem qualquer coisa”, ignorando que alimentos inadequados ou mal formulados gerarão quantidades exageradas de excrementos.
E então ocorre o desastre: o aquário passa a ter água túrbida, esbranquiçada e com forte odor pútrido, já que ocorre a decomposição desses excrementos (além das sobras de ração) em exagero no aquário. Nosso amigo aquarista passa a ter uma fonte de preocupações e dissabores, já que seu aquário é algo feio e que exala odor desagradável. Ou seja, está insatisfeito com seu produto, e começa a pensar em dar fim nisso tudo -- ou seja, está próximo de desmontar o aquário. Em outras palavras, um cliente a menos em sua loja. Imagine isso se multiplicando pelos novos clientes que a loja consegue, e logo entenderá por que o crescimento do aquarismo é mínimo ou até mesmo zero.
A melhor maneira de evitar esse tipo de problema é apostar sempre não apenas em equipamentos de boa qualidade, mas especialmente em alimentos de qualidade superior. A nutrição adequada não apenas gera peixes com maior vitalidade, coloração e comportamentos naturais, mas também aquários mais belos, com água limpa e de manutenção mais fácil, simples e barata. Evidente que a informação correta também é imprescindível para esse sucesso, não apenas explicando essa importância da alimentação de melhor qualidade, mas também para evitar aquários superpopulosos.
Apesar dos alimentos de qualidade superior ter custo final aparentemente maior, o que tende a inibir sua compra pelos clientes, sua rentabilidade é maior no sentido de que se pode fornecer menores quantidades aos peixes


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